Sobre mim:
Eu sei as situações absurdas pelas quais já passei. Só eu sei o que é ouvir, e ficar calada para ser superior. Ninguém nunca poderia ter a audácia de me chamar de fraca, quando já enfrentei obstáculos que derrubaria qualquer um, mas enfrentei sorrindo, eu queria ser forte, precisava ser. Já fiquei tardes inteiras dentro de casa, para não ter que enfrentar brilho do sol e me sentir vazia novamente, já ajudei pessoas para me sentir útil, já errei, pequei, e muitas vezes fui julgada por ser “santa”. Já tive milhares de amizades, se é que posso chama-las assim. Já pulei muros, subi barrancos, arrisquei minha vida, numa tentativa de ser feliz. Tão vã. Tão falha. Já amei, sofri, amei, sofri, amei, sofri, talvez com a repetição você perceba o quão o amor e o sofrimento são parecidos. Uma noite dessas em um barzinho, eu observava um casal enquanto conversavam, complexo eu diria, ele se amavam. Será que o sentimento é algo relativo? Acho que sim, varia de pessoa para pessoa, e de sua capacidade de acreditar. Ainda no bar eu comecei a pensar em mim, tentando me imaginar em outra situação, em outro lugar, talvez um século diferente. Deve ser mais fácil viver uma mentira, não ter que enxergar a realidade a cada manhã, se olhar no espelho e aceitar quem você é, sem inveja, sem medos. É que ando amando pouco. Perdi a vontade se ser alguém melhor, ter uma vida estabilizada. Eu era feliz, eu lembro. Costumava sorrir, porém tinha motivos. Hoje, a vida não gosta de mim, ou vice e versa. Não sinto mais gosto por festas, surpresas não me atraem, sequer me surpreendem. O café que eu fiz queimava por dentro. A xicara quente trazia-me recordações de um passado caloroso, que ficou perdido em algum lugar por ai junto com minha razão. Ainda sonho, mas sonho pouco. Já me magoei muito, e hoje promessas não me atraem. São raras às vezes em que sorrio, e isso me preocupa, eu apenas parei de ver graça nas coisas, graça na vida. Pudera eu voltar ao passado, era um tempo que eu não me preocupava comigo, não representava um perigo para mim mesma. Hoje em dia sou apenas eu e eu, mas ultimamente não ando sendo uma boa companhia. Preciso beber, um alimento para a dor. A porta da ruína. No bar todos me conhecem, a bebida é como um auxilio para mim mesma, esqueço as dores, alivio-me. Tento me salvar, é uma forma de amor próprio, errado, talvez. Mas é. Com mais uma dose de uísque no copo, eu agradeci ao garçom. Quero alguém que me arranque desse poço novamente, porém não vou agradecer, pois para me entender tem que me amar. E com todo o respeito, amor não se agradece.